Perdi a conta de quantas vezes disse isso, mas lá vai mais uma tentativa com o Ique. Cheguei a “enterrá-lo” em 2015 e estava seguro de que não o veria mais, apesar de ter querido fazer um pequeno compêndio pra poder guardar ou presentear os amigos. Ao contrário, perdi meu backup e o Ique não tem mais um registro da sua história.
É uma figura difícil de usar nos tempos em que vivemos, mas não foi só a história dele que queimei. Queimei o próprio. Fui e voltei tantas vezes que comprometi o carisma do rapazinho. Na tentativa nova, o trabalho é também reconstruir uma imagem. (Peço desculpas pelas metáforas face ao crime que ocorreu no Rio, mas também está na cabeça.)
A decisão tem dois motivos principais: a internet deixa. De todas as vezes que tentei, dividia o Ique com o esforço diário de pagar as contas e as minhas próprias mazelas amorosas. Agora, há caminhos para que o projeto seja financiável. Só preciso alcançar velhos fãs de novo. (As mazelas amorosas não se consertam). O outro motivo é que nunca desisti de ter uma tirinha. Mas são muitos temas e muitos caminhos.
Um tema importante pra mim é o machismo. A cultura do estupro é uma ameaça grave ao presente. Entendo que é preciso mudar a forma como educamos nossos meninos e meninas. A gente precisa ampliar o entendimento dos papeis a que nos acostumamos para que sejamos pessoas mais plenas.
Uma ideia chamou-se provisoriamente “Como ser um homem”, que era pra ser um manual com críticas ao aprendizado machista por que passamos. Nunca achei um caminho, nunca desenhei nada. E pensava no que o Ique representava nessa direção. Eu era um moleque machista, imaturo. Escrevi tirinhas que podem não ter sido ofensivas, mas que não faria de novo. O que o Ique procurava, assim como eu, era uma maneira de conciliar sua personalidade com as dificuldades do relacionamento entre um homem e uma mulher e, mais tarde, entre pessoas, em geral.
Com a necessidade de um futuro mais feminino e de homens melhor preparados, pareceu adequado ressuscitar o rapaz e expandir a conversa, sem os velhos repetecos, tentando temas mais universais. Como eu, Ique é um “canalha em recuperação” e tem muito o que aprender.4
Tentemos de novo, tanto aprender quanto dar vida ao meu menino.
